O Pirata Jornaleiro: documento de 1830 revela a profissão de João Francisco em Curitiba

Registro histórico mostra que João Francisco Inglez, personagem associado pela pesquisa ao Pirata Zulmiro, aparece como “jornaleiro” na Lista Nominativa de 1830.

 

O Pirata Jornaleiro

Curitiba, agosto de 2026

Um documento histórico do século XIX revela uma informação pouco conhecida sobre a vida de João Francisco Inglez em Curitiba. Na Lista Nominativa dos Maços de População da Capitania de São Paulo, de 1830, ele aparece registrado no fogo nº 147 com uma ocupação específica: jornaleiro.

O registro ajuda a reconstruir os primeiros anos de João Francisco na então Vila de Curitiba. Segundo a pesquisa desenvolvida sobre o Pirata Zulmiro, João Francisco Inglez era o nome utilizado no Brasil pelo britânico Francis Hodder, personagem ligado à história do tesouro da Ilha da Trindade.

O que significava ser jornaleiro em 1830?

No Brasil do século XIX, “jornaleiro” não tinha relação com a venda de jornais. O termo designava um trabalhador que recebia por jornada ou diária, realizando diferentes tipos de serviço sem vínculo permanente com um único empregador.

Era uma ocupação comum entre homens livres que não possuíam propriedade ou um ofício especializado.

Nesse contexto, o registro chama atenção justamente pelo contraste. A pesquisa sobre Zulmiro relaciona João Francisco a uma formação britânica e a uma trajetória muito diferente daquela apresentada oficialmente às autoridades brasileiras.

O documento registra também sua família

A Lista Nominativa de 1830 registra três pessoas no fogo nº 147: João Francisco, sua esposa Rita e uma criança de aproximadamente um ano.

Outro detalhe chama atenção: João Francisco aparece com 23 anos declarados. Entretanto, de acordo com a cronologia utilizada na pesquisa sobre Francis Hodder, ele teria aproximadamente 32 anos naquele período.

A diferença acrescenta mais uma questão à investigação sobre a identidade que João Francisco construiu depois de chegar ao Brasil.

Sua esposa era Rita Maria dos Santos, com quem havia se casado na Igreja Matriz de Curitiba em fevereiro de 1829. Documentos religiosos daquele período também registram a mudança de religião realizada antes do casamento.

Uma vida muito diferente daquela atribuída ao pirata

A imagem apresentada pelo censo é simples: um homem chamado João Francisco, vivendo com a família e trabalhando por diária em Curitiba.

É justamente isso que torna o documento interessante.

Segundo a pesquisa histórica sobre o Pirata Zulmiro, o personagem teria passado por uma transformação radical de identidade ao se estabelecer no Brasil. Nome, religião, idade declarada e atividade profissional formavam uma vida muito distante daquela associada ao passado atribuído a Francis Hodder.

Em vez de um personagem cercado por navios, expedições e tesouros, o documento apresenta um trabalhador comum tentando construir uma nova existência no interior do Brasil do século XIX.

Uma nova peça no quebra-cabeça histórico

Registros como a Lista Nominativa de 1830 são importantes porque permitem acompanhar João Francisco não apenas através de relatos posteriores, mas por meio de documentos produzidos enquanto ele ainda estava vivo.

A palavra “jornaleiro”, escrita em um antigo censo, parece um detalhe pequeno. No entanto, ela ajuda a revelar como vivia o homem que décadas depois se tornaria parte de uma das histórias mais curiosas ligadas à Ilha da Trindade e a Curitiba.

Cada documento acrescenta uma nova peça ao quebra-cabeça.

E, neste caso, a peça mostra um pirata que, oficialmente, era apenas mais um trabalhador da Vila de Curitiba.

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