Curitiba, outubro de 2026
No dia 13 de outubro de 2026, uma história preservada em Curitiba foi apresentada em um dos colégios mais tradicionais do Reino Unido. Na biblioteca Henry Marten, em Eton College, Marcos Juliano Ofenbock compartilhou com mais de 40 alunos e professores os resultados de 22 anos de investigação sobre o Pirata Zulmiro.
O convite partiu de Lucas Cornelsen, aluno da Villiers House. Segundo o professor Andrew Robinson, Master da History Society, Marcos tornou-se o primeiro brasileiro a palestrar para a Sociedade de História de Eton.
Fundado em 1440 pelo rei Henrique VI, o colégio educou gerações da aristocracia e da realeza, incluindo os príncipes William e Harry. Naquela noite, seus estudantes conheceram uma pesquisa brasileira que propõe uma ligação inesperada entre a história de Curitiba e um dos personagens mais conhecidos da literatura britânica.
99 anos depois de Barrie
O evento foi realizado em referência à passagem de J. M. Barrie por Eton em 1927, quando o criador de Peter Pan apresentou o discurso Captain Hook at Eton — “O Capitão Gancho em Eton”.
Noventa e nove anos depois, um pesquisador brasileiro chegava à escola com uma pergunta: poderia um pirata real, que viveu escondido no Brasil, ter ajudado a inspirar o Capitão Gancho?

Lucas Cornelsen e Marcos Juliano no pátio de Eton College.
A hipótese parte de paralelos encontrados entre os relatos sobre Zulmiro e a obra de Barrie. Em 1896, oito anos antes da estreia teatral de Peter Pan, a imprensa divulgou a história de um pirata que dizia ter estudado em Eton, vivia escondido nas matas brasileiras e afirmava que Zulmiro não era seu verdadeiro nome. O conteúdo da primeira carta de Edward Young também chegou à imprensa londrina, no Financial News, em 15 de maio daquele ano.
Mais tarde, Barrie apresentaria Gancho como um antigo aluno de Eton, cujo nome verdadeiro permanecia oculto. Em Peter and Wendy, de 1911, associou seu golpe favorito de esgrima ao Rio de Janeiro. No discurso de 1927, acrescentou referências a Manaus e ao envio de seu testamento do Rio para a Inglaterra.
Essas correspondências não demonstram, por si só, que Barrie conheceu a história de Zulmiro. Mas sustentam uma pergunta que orienta a investigação — e que Marcos levou aos estudantes da própria escola ligada aos dois personagens.
No Brasil, a pesquisa reuniu documentos sobre João Francisco Inglez, possível identidade civil de Zulmiro, que viveu no Pilarzinho, em Curitiba, onde cultivou lavouras e passou décadas longe do mar.
Dentro dos arquivos de Eton
Antes da palestra, Andrew Robinson recebeu Marcos e sua equipe para uma visita pelos espaços históricos do colégio, incluindo bibliotecas, a capela e a antiga sala de aula.
O momento mais significativo veio com o acesso ao registro de Francis Hodder de 1811, contendo sua assinatura original. Hodder, ligado à região de Cork, na Irlanda, é investigado por Marcos como possível identidade de João Francisco Inglez.

Assinatura de Francis Hodder – Arquivos de Eton College – 1811.
A assinatura pôde ser comparada àquela encontrada em um documento de batismo de 1829, na Igreja Matriz de Curitiba. A semelhança observada nos nomes Francis e Francisco fortalece a hipótese de identidade.

Assinatura de John Francisco Inglez – Arquivos Igreja Matriz de Curitiba – 1829.
Para Marcos, consultar o registro no próprio colégio representou um dos momentos mais importantes da viagem: uma investigação iniciada em arquivos brasileiros encontrava uma nova peça documental em Eton.
A recepção incluiu ainda um chá na casa do professor Robinson e, à noite, um jantar na Villiers House, com a acolhida do Major Osborne e dos estudantes.
Havia também uma coincidência simbólica: a casa de Lucas Cornelsen, o aluno que fez o convite, tem como emblema uma bandeira pirata com caveira e ossos cruzados. Seu bisavô nasceu em Curitiba, acrescentando uma ligação pessoal entre o estudante e a cidade onde Zulmiro viveu.

Emblema da Villiers House.
Após o jantar, Marcos apresentou a pesquisa na biblioteca. Ao final, vieram longos aplausos, perguntas e conversas que continuaram depois da exposição.
A mensagem que veio depois
Em uma mensagem enviada após o encontro, Andrew Robinson escreveu:
“Você fez uma excelente apresentação, da qual os alunos gostaram muito.”
O professor também destacou a capacidade de Marcos de despertar nos estudantes o interesse por uma história inspiradora — e comentou, com humor, que ficou satisfeito por ele ter desencorajado um dos jovens a se tornar pirata.
Robinson também aceitou o convite para se tornar membro honorário do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.
A acolhida marcou Marcos e sua equipe. Para o pesquisador, compartilhar os documentos, ouvir as perguntas dos alunos e encontrar interesse pela continuidade da investigação deu à visita um significado que ultrapassou a apresentação.
Uma investigação que atravessou o oceano
Uma história preservada na memória de Curitiba levou Marcos a jornais antigos, registros de igreja, documentos de cemitério e arquivos britânicos. Ao longo de 22 anos, a investigação deu origem a livros e a novas perguntas — até chegar aos estudantes de Eton.
A viagem abriu caminhos para continuar a pesquisa sobre a identidade de Zulmiro e desenvolver o projeto da Expedição Arqueológica Ilha da Trindade, voltado à investigação dos locais descritos nos relatos históricos.
Quase um século depois de Barrie levar o Capitão Gancho a Eton, um brasileiro apresentou à escola a história de um homem que talvez ajude a compreender o passado do personagem.
A pergunta que começou em Curitiba agora também ecoa em Eton: quem foi o Pirata Zulmiro?