Documento de 1871 revela João Francisco Inglez expandindo sua lavoura em Curitiba
Curitiba, setembro de 2026
Quarenta e dois anos depois de chegar a Curitiba como um foragido sem identidade, o pirata Francis Hodder — registrado no Brasil como João Francisco Inglez — aparece nos arquivos municipais fazendo um pedido que revela uma transformação extraordinária: em 14 de julho de 1871, ele requisitou formalmente à Câmara Municipal da Capital uma carta de foro para expandir sua lavoura no bairro do Pilarzinho.
O documento original, preservado nos arquivos históricos de Curitiba, registra com precisão cada detalhe do pedido: uma área de cinquenta braças em quadra, medida pelos fiscais da Câmara a rumo de Norte a Sul e de Leste a Oeste, mediante pagamento de oito mil réis pela medição e de três mil réis anuais de foro. A requisição foi assinada pelo Presidente da Câmara, José Lourenço de Sá Ribas, e pelo Secretário, Ermelino Marques dos Santos.

Um foragido que virou proprietário
O pedido de expansão de lavoura em 1871 é, em si, uma declaração silenciosa de prosperidade. Não é o gesto de um homem sobrevivendo — é o gesto de um homem estabelecido, com raízes fincadas no solo paranaense, que quer crescer.
Para entender o peso disso, basta lembrar de onde João Francisco Inglez havia partido: em 1829, chegou a Curitiba com 50 libras no bolso e quatro livros debaixo do braço, após escapar da forca com a ajuda de um comandante britânico que simulou sua fuga no litoral brasileiro. Nos primeiros censos — 1830 e 1836 — aparecia como jornaleiro e depois como agricultor de subsistência, plantando milho e feijão para sustentar a família no Pilarzinho.
Quarenta anos depois, esse mesmo homem estava diante da Câmara Municipal pedindo mais terra para expandir. O disfarce havia funcionado tão bem que João Francisco Inglez era, aos olhos de Curitiba, simplesmente um agricultor estabelecido do Pilarzinho — respeitável o suficiente para ter seu pedido atendido pelas autoridades municipais.
O documento e seus detalhes
Além do pedido em si, o texto da carta de foro revela as condições impostas pela Câmara para o uso do terreno — condições que mostram a organização administrativa de Curitiba na época: reserva de madeiras, lenhas, fontes e pedreira para uso público, proibição de tapar estradas e seus atravessadouros, e vedação de derrubadas em atalho aberto. João Francisco Inglez as aceitou todas e pagou os valores devidos conforme as posturas municipais.
Mais uma peça no quebra-cabeça
O documento de 1871 é, portanto, mais uma peça na cadeia documental que comprova a existência histórica do Pirata Zulmiro em Curitiba. Junto com a certidão de casamento de 1829, o censo de 1830 e o Maço de População de 1836, ele forma uma linha do tempo que acompanha a vida de João Francisco Inglez por mais de quatro décadas — de agricultor de subsistência a proprietário que expande sua lavoura com autorização municipal.
Morreu dezoito anos depois, em 1889, aos 90 anos, no mesmo bairro do Pilarzinho onde havia plantado pela primeira vez em 1836. Sem que ninguém em Curitiba soubesse, até décadas depois, quem ele realmente havia sido. 🏴☠️
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