A Assinatura do Pirata Zulmiro — Um Documento de 1829 Revela a Caligrafia de um Gentleman

Curitiba, agosto de 2026

 

 

 

Entre os documentos que comprovam a existência histórica do Pirata Zulmiro, um se destaca pela sua raridade e pelo que revela sobre o homem por trás da lenda: a assinatura original de John Francisco, registrada em 31 de janeiro de 1829, no Documento de Dispensas Matrimoniais do Arquivo da Arquidiocese de São Paulo (Volume 5870, Folha 2).

Naquele dia, na Vila de Coritiba, o irlandês Francis Hodder — que vivia no Brasil sob o nome João Francisco Inglez — compareceu perante o Reverendo Vigário da Vara, Antonio Teixeira Camello, para abjurar formalmente a fé anglicana e ser batizado na religião católica. Era uma condição imposta pelo padre para autorizar o casamento com Rita Maria dos Santos. Ao final do documento, ao lado da assinatura do vigário Camello, consta uma única assinatura do contraente:

John Francisco.

Sem sobrenome. Sem qualquer outro dado. Como se o homem que assinou soubesse exatamente o quanto precisava revelar — e nada mais.

O que a caligrafia revela

A assinatura de John Francisco não é a de um homem comum. A caligrafia é refinada, segura e elegante — traços longos, letras cursivas bem formadas, com a fluidez característica de quem aprendeu a escrever num ambiente de educação clássica. É a caligrafia de um gentleman, não de um aventureiro sem instrução.

Esse detalhe é historicamente significativo: reforça de forma visual e concreta o que os documentos britânicos já indicavam — que Francis Hodder foi aluno do Eton College por volta de 1810-1814, uma das instituições de ensino mais prestigiadas do mundo, onde a caligrafia cursiva era parte central da formação dos alunos.

O documento na íntegra

 

 

O texto original do Termo de Depoimento registra, em linguagem jurídico-eclesiástica do século XIX, que João Francisco Inglez “de sua livre vontade abjurava os erros da Religião Anglicana em que fora criado e professava seguir em tudo e por tudo a Religião Catholica.” O batismo foi realizado sub conditione — sob condições — pelo mesmo vigário, que o registrou como “adulto, inglês, filho de João Francisco e Maria Francisca, natural de Londres.”

É o momento em que o pirata mais famoso do Atlântico Sul apagava oficialmente sua identidade britânica e se tornava, para o mundo, João Francisco Inglez — um simples imigrante inglês na Vila de Coritiba.

Um gentleman escondido no meio do mato

 

 

A caligrafia refinada de John Francisco contrasta de forma poderosa com o destino que ele escolheu: agricultora no bairro do Pilarzinho, plantando milho e feijão, sem revelar a ninguém quem realmente era. O mesmo homem que assinou esse documento com a elegância de um Etoniano passou os cinquenta anos seguintes escondido na mata, cumprindo um juramento.

Essa assinatura é, portanto, muito mais do que um registro burocrático. É o único traço físico deixado pelo próprio punho de Zulmiro — e ele diz, para quem sabe ler, tudo o que o pirata nunca quis contar. 🏴‍☠️

https://piratazulmiro.com.br/